Nos últimos dias viu-se nas redes sociais um crescimento gigantesco das menções – e do apoio – aos Anonymous. Eles, que já vinham agindo há tempos, como no caso do rastreamento e divulgação de IPs de pedófilos (http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI5451094-EI12884,00-Anonymous+revela+IP+de+frequentadores+de+sites+de+pedofilia.html), ganharam notoriedade mundial depois de sua reação ao fechamento do site Megaupload. Posicionando-se contra o SOPA, projeto americano que visava impedir o compartilhamento de arquivos na internet, anonymous e simpatizantes do mundo inteiro atacaram dezenas, talvez centenas (difícil saber o número ao certo) de sites direta ou indiretamente relacionados ao projeto e ao seu conceito. Incluindo o site do FBI.Mas eles não pararam por aí. A mobilização continua, e no Brasil, hoje, os Anon estão se posicionando contra abusos como a desocupação violenta e injustificável ocorrida em Pinheirinho no domingo. Que fique claro: os Anonymous não são apenas “um grupo de hackers”. Há pessoas de vários setores, trabalhando em conjunto.
Para os leitores que podem estar se fazendo essa pergunta agora, já digo: Não, não faço parte dos Anonymous. (Não mais do que qualquer pessoa que compartilhe com eles a revolta com o estado atual das coisas...) Mas vejo neles uma força enorme, que se deve principalmente ao seu poder de mobilização. E vejo um certo "charme matrix", um espírito revolucionário, algumas vezes quase romântico – mas altamente sedutor.
Tenho ouvido muitas críticas à linguagem escolhida pelos Anonymous. Mas não acho que estejam errados nisso. Quando digo que eles têm um forte poder de mobilização, refiro-me a poderem alcançar pessoas que nunca se mobilizaram por nada. Eles se dirigem a todos, e não apenas aos que já militam em causas ou partidos. Esses já estão ganhos. O enorme favor que os Anon podem fazer a todos nós, que partilhamos com eles a indignação com a corrupção, com os desmandos, com as injustiças que vemos no mundo hoje, é ganhar aquelas pessoas que nunca pensaram em se envolver com política... os que não têm saco para discursos partidários, os que estão acomodados, alienados ou achando que “não adianta fazer nada”. E que, sejamos realistas, hoje são a maioria da população.
A minha crítica aos Anonymous é só uma – e que me parece que já está sendo feita internamente –: organização. A impressão que tenho é que eles cresceram rápido demais, e hoje vê-se, em alguns momentos, uma certa desorientação. Entre os membros que acompanho no twitter, vejo às vezes discordâncias, declarações meio perdidas ou que “passam do ponto”. E vejo críticas aos que estão entrando agora não pelos ideais, mas apenas pela fama, pelo glamour da coisa.
É delicado, porque até onde sei a estrutura dos Anonymous não é rígida e hierárquica como a de um partido. E nem me parece que deva ser. Mas fico aqui pensando que seria importante traçar diretrizes básicas. O que dizer, o que não dizer. O que defender, o que não defender. O que atacar, o que não atacar. Quem são os inimigos, quem pode ser aliado. Como se proteger. Como agir.
Sei que já há vídeos e textos nesse sentido. Então, sugiro que qualquer um que se interesse pelos Anonymous agora, que queira participar ou ajudar, busque primeiro se informar, ler e assistir tudo o que já foi postado por essa “legião”. Como este vídeo:
E paro por aqui. Desejando boa sorte a todos nós, anonymous ou não, nessa luta por um mundo mais justo.
Beijos,
Deb.
9 opiniões sobre o assunto:
Comecei a acompanhar as ações deles agora. Não sabia dessa contra a pedofilia na web. Muito bem.
Marina
Foi muito bacana sim. Eles fizeram o papel que deveria ser da polícia, mas sabe como é, né? rss
Beijos,
Olá, Deb.!
Moça, muito bacana ver você fazendo um texto tão interessante sobre o Anonymous.
Sabe, uma vez, após ler o quadrinho "V de Vingança", de Alan Moore (recomendo que pesquisem), fiquei encantado, mas nunca imaginei que a realidade algum dia imitaria a ficção.
E agora me dou conta de que, talvez por meio de um "tiro no escuro", algum maluco em algum canto do mundo teve a ideia de pegar o conceito e aplicá-lo... e acabou pegando!
O que mais me chama atenção é o fato de que, uma vez lançada a ideia "Anonymous", ela já não pertence nem mesmo ao "lançador". Tornou-se um "espectro", que paira sobre o mundo inteiro, sem forma rígida, sem endereço, fluindo como água em movimento. Algo como "quer tornar-se um Anonymous? Pois bem: você já é". E, sinceramente, era disso que eu sempre senti falta.
Vimos ao longo da história surgirem diversas ideologias revolucionárias, como o anarquismo, assim como movimentos contraculturais (Hippie, Punk, Beat...). E sempre me chamou atenção o fato de que, mesmo tendo uma "essência" muito próxima em vários pontos, cada "vanguarda" se isolava uma da outra, alojando-se à sua perspectiva tribo.
Hoje, graças à ideia Anonymous, estão todos unidos. Punks, Beatniks, Românticos, Discordianos, Hippies, anarquistas, simpatizantes, curiosos, alienados, doutores em Filosofia/Ciência Política...
O que provoca divergências, claro, e é exatamente aí que está, para mim, o "pulo do gato": na abertura a uma multiplicidade imensa de pontos de vista. Conhecer é afastar-se daquilo que é familiar, e nisso implica afastar de si mesmo, não só agora, mas sempre. Contradizer é a chave.
Bom, acho que exaltei no discurso aqui, mas é que sempre tive um pezinho no hardcore. Aí já viu. hehehe... Ah, e antes que me esqueça: eu não sou um Anon; não estou falando em nome do Anonymous, que nem sequer chega a ser um grupo. Apenas resolvi dar minha interpretação particular - que, obviamente, não é a única.
Aproveitando o embalo, deixo aqui dois textos que recomendo bastante (espero que não se incomode), pra quem quiser começar a pesquisar mais a fundo:
http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_materia.php?codMateria=9286/por-trás-das-máscaras-de-guy-fawkes
Este não é especificamente sobre o Anonymous, mas é também bem pertinente: http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/01/11/ocupar-wall-street-e-o-poder-constituinte-da-multidao/
E aqui mais um vídeo, recomendado para quem muitas vezes acorda de sonhos intranquilos em forma de inseto:
http://www.youtube.com/watch?v=jsx3skXvsZ0
Beijos!
P.S.: Perdoe-me pela extensão do comentário. Mas, pelo menos, acho que tenho um crédito, já que fazia um tempinho que eu não aparecia aqui... bj
Victor
Eita. Anonymous fan detected. :)
Então... não acho ruim a diversidade. Pelo contrário, acho que ela pode ser muito benéfica. Mas se isso significar cada um atirando para um lado, foi-se a força...
Vou ver os links que você passou amanhã, tá? Obrigada!
Beijos,
Victor: "Acordar de sonhos intranquilos em forma de inseto", que bela maneira de terminar. E sim, um "tiro no escuro", na verdade, uma piada, em forma de intensa ironia, à regra de "jamais dizer", exceto aos que "já sabem".
Embora hoje eu não seja diretamente envolvida, a máxima persiste: "uma vez anon, sempre anon". Sempre serei. Estive lá quando anon era uma piadinha em meio a diversas piadas. Quando defendia-se causas menores, como a legitimidade da internet e a procrastinação "as-is", sem intenção de agregar ou incitar uma discussão sadia, veemente (vide a derrubada do Tumblr). Também quando surgiram as primeiras piadas com a "party van", "lolicon" e "i'm watching cp" (cp = child porn), que fez com que pessoas maliciosas quebrassem a regra ("everything for the lulz")e postassem real pornografia que as permitiu ser rastreadas, o que mostra que os próprios anons sabem quem veste a máscara por interesse, e quem faz o trabalho pra eliminar "o câncer da internet". Em protesto ao silenciamento da wikileaks, ou à prisão do garoto sueco que criou a lib_dvd_css (não sabe o que é? é por causa dessa biblioteca de dados que você hoje pode assistir um dvd proprietário no seu laptop e ainda guardá-lo como backup). Provável que, se alguém aqui já souber disso, vai me responder com um "rule 1&2", e essa é a piada, é quase como falar da "nova ordem" =p
Me faz feliz ver que a causa cresceu, que tomou forma a ponto de defender causas cada vez maiores, sob a máscara de Guy Fawkes. Meu temor? Assim como a história de Moore, estamos vivendo um momento de "terra de faça-o-que-quiser". Pessoas usando Anon como se usa Al Qaeda. Pessoas atribuindo ao poder da massa causas pessoais (como recentemente, a possível derrubada do FB, talvez justificada pelo fato de não haver ação de Zuckerberg em reação à SOPA, mas de fato uma tentativa disfarçada de keylogging em massa, já que é completamente desnecessário baixar um arquivo para ajudar em um DoS, há ferramentas muito mais eficazes para criar cargas). A certeza é que os legítimos irão desmascarar, e tomar providências. Justiça popular, em um mundo acostumado a juri, pode parecer um tanto cruel, mas o que não? "Porque um de nós apenas não é tão cruel como todos de nós". Todos somos, para bem, ou para mal. Neste caso, legítima defesa, de um ideal.
Hoje em dia, diante de uma "orkutização do Anonymous", a ponto de falarem em defaces feitos por eles, ou referir-se a como um grupo paralelo ou "grupo hacker" (clássico meme, desde a matéria da fox news - em http://www.youtube.com/watch?v=DNO6G4ApJQY - aliás, o meme é a forma do Anon expressar, através da ironia, um assunto necessário, então dizer que qualquer coisa é "meme" já faz parte da orkutização do anon), cabe saber o que é. Logo, Deb, agradeço por tratar de forma respeitosa este assunto. Isso já faz de ti parte da voz crescente da internet (coisa que eu reconheço bem antes disso).
Em tempo: http://www.youtube.com/watch?v=8hJXxDxgI0I
Mei.k-o, querida
Li o seu "uma vez anon, sempre anon", e fiquei aqui pensando... Pouco menos de ano atrás falei a um mocinho que tinha desistido de lutar. Que não acreditava mais que fosse possível fazer alguma coisa para mudar este país. Mas que torcia por ele, em seu idealismo. Hoje, de repente, me vejo torcendo COM ele. E percebo que uma vez idealista, sempre idealista. A coisa pode adormecer ou ser sufocada por um tempo, porque às vezes a gente cansa de dar murro em ponta de faca. Mas sempre volta. Está no DNA. :)
Te confesso que muitas das coisas que você falou são grego antigo para mim. rsss Sou uma negação com informática, códigos, matemáticas. Mas mesmo assim te entendi, e gostei demais do seu comentário.
Quando você diz: "A certeza é que os legítimos irão desmascarar, e tomar providências", lembro de conversas que já vi no twitter, de anonymous esclarecendo que não iriam fechar facebook, que tal site era falso porque nenhum anon cobraria por nada etc. E vejo que eles estão atentos a esses abusos. Ótimo. Como você diz, é a legítima defesa de um ideal.
E quanto ao meu respeito... eles o ganharam. :)
O link também vou ver amanhã, tá? Se não o Victor briga comigo...
Beijos!
Olá, Mei.k-o,
Confesso que também sou bastante leigo quanto aos termos relativos à informática, então boiei um bocado, rsrs. Mas, assim como Deb., gostei do que você disse.
Ah, e uma coisa que tem passado pela minha cabeça, e seu comentário me fez trazer aqui: imagino que há também agentes do governo (e, muito provavelmente, do FBI) se passando por Anons, talvez participando até mesmo de conversas. É aberto demais, eu imagino. Daí a importância enfatizada por eles de nunca dizer a ninguém que se é um Anon. Fico curioso pra saber o que os "Anons legítimos", principalmente os mais espertos, estão planejando em relação a tal possiblidade de haver muitos infiltrados.
Mas, como você disse, os legítimos desmascaram e tomam providências. Uma coisa engraçada que acho é o medo que muita autoridade tem sentido.
Em relação à orkutização do Anonymous, particularmente, vejo essa "orkutização" útil como publicidade. A máscara de Guy Fawkes nunca esteve tão divulgada, e agora fica difícil para as autoridades saberem quem é um verdadeiro Anon ou quem é um mero simpatizante. Estão todos por trás de uma única máscara. Embora muita gente que nem sequer pegou o "espírito da coisa" aumente, inclusive com atitudes equivocadas ou descuidadas (o que pode ser perigoso para elas), os "verdadeiros" ganham mais apoio/simpatia (como ganharam o meu e o de Deb.). É claro que há o lado prejudicial nisso, mas não haveria como evitar o processo.
Bom, apenas resolvi compartilhar umas reflexões que seu comentário gerou em mim. Muito bacana seu comentário!
Deb.,
Eu não brigo não! Mas desde que veja os meus depois. hehehe
Beijos!
Só comecei a saber alguma coisa dos Anon agora, mais adorei isso ( tbm adorei seu post, me ajudou a saber mais, como o lance de combate a pedofilia)acho muito bom que os poderosos veja no povo um poder, um poder ser um rosto que eles possam atacar, mais verdadeiramente um poder, muito bom mesmo!
Lú
Lú
Como você, muita gente só soube deles agora. Dê uma procurada no youtube, no google, olhe os links que o Victor colocou na resposta dele. Muita informação. :)
Beijos!
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